Ideologia de Gênero - Pe Giovanni

julho 20, 2015

“Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher Ele os criou” (Gn 1,27). “O homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2,24). “E Deus os abençoou e lhes disse: «Sede fecundos e multiplicai-vos»” (Gn 1,28)

Nessas poucas palavras da Bíblia está resumida a diferencia sexual do homem e da mulher e a instituição do matrimonio e da família.

“Homem e mulher Ele os criou”. No pensamento de Deus, as diferenças entre homem e mulher não são para a oposição ou subordinação, mas de comunhão e de geração. São diferencias complementárias.

No encontro com os bispos de Porto Rico em sua visita ad limina, 8 de junho de 2015, o papa Francisco falou que essa complementaridade entre o homem e a mulher, ápice da criação divina, está hoje sendo contestada pela chamada “ideologia de gênero”.

A preocupação do Papa reflete a de toda a Igreja, chamada a testemunhar a beleza da diferença sexual diante da proliferação de uma ideologia que tenta corroer a milenar herança biológica e antropológica da humanidade.

Neste mês de junho, está sendo votada nos Municípios do País a proposta de inserir no Plano Municipal de Educação (PME) a chamada ‘ideologia do gênero’ (ou ‘teoria do gênero’ – gender theory). O que isso significa? Quais as consequências?

O que é a ‘ideologia do gênero’?

A ‘ideologia do gênero’ afirma que o gênero masculino e feminino não seria intrínseco ao sexo biológico, mas seria a consequência de uma construção cultural e social.

A identidade sexual do ser humano não seria determinada pela biologia – menino ou menina – que caracteriza cada ser humano desde o instante da concepção, mas dependeria do ambiente sociocultural. O ser humano nasceria sexualmente neutro, do ponto de vista psíquico, e seria constituído homem ou mulher a partir do contexto cultural. O ser ‘mulher’ não seria mais uma característica exclusiva do ser biológico feminino (XX); nem o ser ‘homem’ seria mais uma característica exclusiva do ser biológico masculino (XY).

Desta maneira, não seria mais o sexo biológico (sexo genético, sexo gonádico, sexo hormonal) que determina minha sexualidade. Ao contrário, sou eu que escolho como viver o sexo biológico. Sou eu que escolho se ser ‘homem’ ou ‘mulher’ independentemente do sexo biológico.

O sexo biológico é apenas um dado corporal de cuja ditadura nos deveríamos libertar pela escolha arbitrária de um gênero. Em outras palavras: nós nascemos com um sexo biológico definido (homem ou mulher), mas, além dele, existiria o sexo psicológico ou o gênero que é o indivíduo construído livremente pela sociedade na qual eu estou inserido.

E a lei tem que me reconhecer esse direito. E com isso, o direito de me juntar com quem eu quiser e essa união ser reconhecida como matrimônio com direito a filhos naturais (reprodução assistida) e adoção.

A ideologia do gênero acredita que o corpo é sexual, mas isso não é determinante. O que importa é a forma como a pessoa se sente. O sexo (masculino e feminino) entendido como um fato biológico não configura a pessoa, que, pelo contrário, assume a sua identidade de gênero a partir do contexto social e cultural.

Por conseguinte, a sexualidade não é um destino, não é um fato biológico ligado à forma do corpo, mas é uma escolha, um resultado histórico, uma opção nas mãos do indivíduo. Por isso, a identidade sexual do indivíduo pode mudar ao longo de sua vida, seja em um sentido como no seu oposto.

De acordo com os criadores da ideologia de gênero, o conceito de gênero deve substituir o uso corrente do conceito de sexo (masculino ou feminino). E deve ser retirada da linguagem qualquer realidade que tenha fundamento em fatos biológicos, como a palavra ‘mãe’ e ‘pai’.

Origem da teria do gênero?

Historicamente, na filosofia do gênero, houve a influência de diversas correntes. Para citar algumas: a permissividade hedonista e seu slogan “ao sexo não se manda”; o pansexualismo de S. Freud que reconduzia as neuroses e os sofrimentos da personalidade à repressão da sexualidade; o ‘Relatório’ Kinsey, pelo qual o sexo é um simples mecanismo ligado a certos estímulos e, portanto, não faz sentido dizer, em contexto sexual, que algo está errado ou que não é normal; a revolução sexual que reduziu o sexo a simples instinto. O fio condutor é que o homem deve ser libertado e que isso pode ser feito através da liberalização do sexo.

A teoria do gênero dá as caras publicamente em 1995, em Pequim, durante a Conferência Mundial sobre as Mulheres. Na ocasião, a feminista Judith Butler teoriza, pela primeira vez num contexto tão importante, um dualismo entre gênero e sexo.

A origem da ideologia de gênero é marxista. Para Marx, o motor da história é a luta de classes. E a primeira luta ocorre no seio da família. Em seu livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884), Engels escreveu: “A primeira divisão de trabalho é aquela entre homem e mulher para a propagação dos filhos… A primeira oposição de classe que aparece na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher unidos em matrimônio monogâmico, e a primeira opressão de classe coincide com a do sexo feminino pelo sexo masculino”.

O neo-marxismo, em seguida, especialmente com Marcuse, alargou a libertação à esfera da heterossexualidade, falando de ‘livre escolha do sexo’.

Simone de Beauvoir convida as mulheres a recusar o casamento para não serem submetidas aos homens.

A partir do 1950, a filosofia do ‘gender’ é assumida pelas feministas para justificar intelectualmente o seu serem lésbicas.

Em seguida, o feminismo impôs a ideia de que fosse precisamente a diferença entre os sexos a originar a inferioridade social da mulher e que os papéis de homens e mulheres, também dentro da família – por nada naturais, mas somente culturalmente induzidos – constituem uma grave injustiça. A real conquista ideológica e social seria a passagem do ‘sexo’ para o ‘unissex’.

A roupa foi o emblema dessa passagem: jeans e camisetas únicas para todos, homens e mulheres. Não há pontos fixos, não há dados de natureza, válidos para o homem de todos os tempos e todos os lugares.

Os movimentos homossexuais recuperam a corrente intelectual do gênero para mostrar que a ideia da sexualidade não é uma questão de natureza, mas um fenômeno cultural que se constrói. Se o termo ‘gênero’ significa considerar o homem como um ser produzido pela cultura, e que as leis democráticas devem acolher, então, a homossexualidade não seria um desvio sexual do homem ou da mulher, mas o fenômeno de sua orientação sexual.

Somos sexuados por natureza ou por ‘cultura’?

Pela embriologia sabemos que, desde a concepção, somos machos ou fêmeas. Do sexo genético é formado o sexo gonádico, hormonal e morfológico, e, ao longo do tempo, também o sexo psíquico em harmonia e em coerência com o sexo físico, se nada intervém para mudar este desenvolvimento natural. A sexualidade, ser homens ou mulheres, é uma dimensão constitutiva da pessoa, é seu jeito de ser, de se manifestar, de comunicar com os outros, de sentir, de expressar e de viver o amor humano.

Pelos especialistas, a identidade sexual é um fenômeno biológico e não cultural. A literatura específica mostra que há diferentes características biológicas que definem a identidade sexual, como a de determinadas áreas do cérebro e genes relacionados à função hormonal.

O direito e a lei não têm poder de mudar a realidade ou a natureza.

Consequências da ideologia do gênero.

A ‘teoria do gênero’ é hoje o ataque cultural e jurídico mais consistente à vida familiar e à relação conjugal. Negar a existência de qualquer diferença sexual fora da construção cultural, significa desestabilizar não só a família, mas a identidade pessoal.

“Fiel à sua raiz marxista, a ideologia de gênero pretende que, em educação, os pais não tenham nenhum controle sobre os filhos. Nas escolas, as crianças devem aprender que não há uma identidade masculina nem uma feminina, que homem e mulher não são complementares, que não há uma vocação própria para cada um dos sexos e, finalmente, que tudo é permitido em termos de prática sexual” (Zenit.org, 12 de Março de 2014).

Para que os novos gêneros (homossexualidade, bissexualidade, transexualidade, intersexualidade) sejam protegidos, a educação deverá ter como meta reconhecida, a igualdade de gênero e orientação sexual, assim como a educação sexual, tornando-a obrigatória nas escolas, por meio do Plano Nacional de Educação.

Conferindo status jurídico à ‘identidade de gênero’ não há mais sentido falar em ‘homem’ e ‘mulher'; falar-se-á apenas de ‘gênero’, ou seja, a identidade que cada um cria para si. Portanto, não há sentido em falar de casamento entre um ‘homem’ e uma ‘mulher’, já que são variáveis totalmente indefinidas.

Há também um esvaziamento jurídico do conceito de homem e de mulher. Não existe um homem e uma mulher definidos segundo a natureza. Cada um escolhe seu sexo conforme seu querer. Destruindo qualquer identidade sexual, a ideologia do gênero destrói a família. Se a sexualidade é determinada pelo gênero e não pela biologia, não há mais sentido sustentar a ideia de que a família é resultado da união estável entre homem e mulher.

As palavras ‘mãe’ e ‘pai’ devem desaparecer da linguagem. No lugar deve-se falar de ‘genitor 1′ e ‘genitor 2′. E a criança não poderá falar ‘mãe… pai’. E nós não devemos celebrar mais o ‘dia da mãe’ e o ‘dia do pai’ por respeito aqueles que não têm pais ‘naturais’, como está já acontecendo!

Se a pessoa humana é sexualmente indefinida e indefinível, qualquer comportamento sexual é juridicamente admissível: a heterossexualidade, a homossexualidade, a bissexualidade, a transexualidade, a intersexualidade, a pansexualidade e qualquer outra forma de sexualidade que existir. Aliás, essas formas não existiriam mais. Elas se definem como a migração de um sexo para outro. Mas, dizem os ideólogos de gênero, quem disse que a pessoa saiu de um sexo, se aquela expressão corporal não exprime a sua identidade construída? Portanto, para eles, não há sequer transexualidade.

Do mesmo modo, não há mais sentido falar em ‘homossexual’, pois a homossexualidade consiste num ‘homem’ relacionar-se sexualmente com outro ‘homem’. Mas para a ideologia de gênero o ‘homem 1′ não é ‘homem’, nem tampouco o ‘homem 2′ o é.

A Igreja deve ficar calada?

Os afirmadores da ideologia do gênero querem impor uma ideologia absurda pela via legislativa, e querem utilizar a escola como um laboratório, expondo as crianças à desconstrução de sua própria personalidade.

Como pessoas, mesmo respeitando as opiniões e as escolhas de vida dos outros, nós temos o dever e o direito de defender e promover os valores naturais da pessoa. Não podemos permitir que a ordem natural seja subvertida por meio de conteúdos antinaturais ministrados nas escolas.

A ideologia do gênero não pode ser matéria para a educação dos jovens, e a identidade sexual não pode prescindir do seu componente biológico.

Como cristão, temos o direito e o dever de fazer ouvir a nossa voz quando a sociedade se afasta da reta ordem natural. O Concílio Vaticano II declara que “é de justiça que a Igreja possa dar em qualquer momento e em toda parte o seu juízo moral, mesmo sobre matérias relativas à ordem política, quando assim o exijam os direitos fundamentais da pessoa” (GS 76).

Como pessoas e como cristãos, devemos continuar defendendo a beleza da diferença sexual, considerando-a em nível filosófico, antropológico, biológico e psicológico; defendendo a beleza da família e do matrimonio como união estável de um homem biológico e uma mulher biológica, como foi pensada e abençoado pelo Criador.

“O homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece (Bento XVI)… A aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum; pelo contrário, uma lógica de domínio sobre o próprio corpo transforma-se numa lógica, por vezes subtil, de domínio sobre a criação. Aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados é essencial para uma verdadeira ecologia humana. Também é necessário ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente. Assim, é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente. Portanto, não é salutar um comportamento que pretenda «cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela»” (Papa Francisco, Laudato si’, 155).

Fonte:  “HOMEM E MULHER OS CRIOU” Uma reflexão sobre a “ideologia do gênero” – Giovanni Cipriani, passionista.

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